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Titulo: As histórias das constelações
Autores: Camila de Andrade Pandini,
Lilia Kelli da Silva, Mikaela Teleken de Jezus e
Roberta Chiesa Bartelmebs
Titulo: O sistema solar
Autores: Pedro Ricardo da Silva Neto, Deidimar Alves Brissi, Fabiana Esgalha Vieira Honda e Dante Ghirardello
Pindorama Ciência - Ano 1 - Volume 1 - e2021004
INTRODUÇÃO
Em 2 de agosto de 1939, o físico húngaro Leo Szilard redigiu uma carta, assinada por Albert Einstein, endereçada ao presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. Essa carta, que ficou conhecida como A Carta de Einstein-Szilard, teve um impacto profundo na História, impulsionando o desenvolvimento do Projeto Manhattan e levando à criação da primeira bomba atômica, utilizada posteriormente nas cidades de Hiroshima e Nagasaki. A carta alertou sobre a possibilidade de a Alemanha desenvolver bombas atômicas e sugeriu que os Estados Unidos iniciassem seu próprio programa nuclear.
ORIGENS DO ALERTA
No início de 1939, a descoberta da fissão nuclear em urânio gerou grande interesse entre os físicos, e cientistas como Niels Bohr trouxeram a notícia aos Estados Unidos. Leo Szilard, físico húngaro, percebeu que a fissão de átomos pesados poderia levar a uma reação nuclear em cadeia (BOHR, 1939). Ele se uniu a Enrico Fermi, um renomado físico ítalo-americano, para enfrentar o desafio de construir um reator nuclear funcional utilizando urânio natural como combustível (Figura 1). O projeto tinha como objetivo criar uma reação em cadeia controlada, onde os nêutrons liberados na fissão de átomos de urânio natural pudessem estimular a fissão de outros átomos, gerando uma liberação sustentável de energia (ALISON, 1955; COPPER, 1999).
Figura 1 – Modelo do primeiro reator nuclear pensado por Enrico Fermi e Leo Szilard. Fonte: Wikipédia, 2011.
No entanto, a construção de um reator nuclear estava longe de ser simples. Um dos principais desafios era encontrar um elemento que pudesse moderar os nêutrons liberados durante a fissão, tornando-os mais eficazes para iniciar novas reações nucleares. Nesse contexto, a equipe liderada por Szilard e Fermi enfrentou dificuldades para identificar um material apropriado para esse papel de moderador de nêutrons (FERMI, 2010).
Foi nesse momento que eles propuseram utilizar o carbono como um possível moderador de nêutrons. O carbono, na forma de grafite, mostrou-se eficaz em retardar os nêutrons sem capturá-los, permitindo que eles colidissem com outros átomos de urânio e iniciassem novas fissões (BAKER, 1971). Essa ideia representou um avanço significativo no desenvolvimento de reatores nucleares, pois viabilizou a criação de uma reação em cadeia controlada com urânio natural e grafite como elementos-chave (COPPER, 1999).
O ALERTA E A CARTA
Com o cenário político e científico se intensificando na Europa pré-Segunda Guerra Mundial, preocupações sobre a possibilidade de a Alemanha nazista explorar a energia nuclear para fins bélicos começaram a surgir. Leo Szilard e Eugene Wigner, ambos físicos húngaros com uma visão aguçada das implicações potenciais da fissão nuclear, decidiram agir para evitar que a tecnologia caísse nas mãos erradas.
Szilard e Wigner estavam cientes de que a Bélgica era uma das principais fontes de minério de urânio, elemento crucial para a pesquisa e o desenvolvimento da energia nuclear. Reconhecendo que a Alemanha poderia acessar esse recurso estratégico, eles viram a necessidade urgente de informar as autoridades belgas sobre a possível utilização militar da fissão nuclear. Acreditando que Albert Einstein, com sua influência e reconhecimento internacional, seria um mensageiro eficaz para transmitir essa mensagem crucial, os dois físicos se dirigiram a ele em busca de apoio.
Em 12 de julho de 1939, Szilard e Wigner visitaram Einstein em sua residência em Long Island, Nova York, para apresentar sua preocupação e solicitar sua ajuda. Eles explicaram as implicações da fissão nuclear e a possibilidade de desenvolvimento de bombas atômicas. Einstein, conhecido por seu ativismo social e humanitário, compreendeu imediatamente a gravidade da situação. Embora inicialmente hesitante, ele reconheceu a importância de alertar sobre os riscos potenciais e concordou em assinar uma carta dirigida ao presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt.
A carta, redigida por Szilard e Wigner com a colaboração de Einstein, delineava as descobertas científicas recentes e a possibilidade de uma reação nuclear em cadeia com implicações tanto em termos de energia quanto de armas. O trio esperava que o impacto moral e ético de Einstein, juntamente com a importância geopolítica dos Estados Unidos, incentivasse ações para iniciar um programa de pesquisa nuclear no país. A assinatura de Einstein conferiu autoridade à carta e adicionou um apelo urgente a Roosevelt para que reconhecesse a necessidade de atenção imediata a essa questão complexa e crítica.
O CONTEÚDO DA CARTA
A carta datada de 2 de agosto de 1939, direcionada a Roosevelt, alertava que era provável a criação de uma reação nuclear em uma grande quantidade de urânio, capaz de gerar poder e elementos radioativos. A carta também destacava que isso poderia levar à construção de bombas poderosas, com potencial de destruição devastadora. O documento também mencionava a suspensão da venda de urânio da Tchecoslováquia pela Alemanha, sugerindo o interesse germânico na energia nuclear (Figura 2).
Figura 2 – A carta de Einstein publicada em 1945. Fonte: Wikipédia, 2007.
TRADUÇÃO DA CARTA ORIGINAL
Senhor:
Alguns trabalhos recentes de E. Fermi e L. Szilard, que me foram comunicados em manuscrito, levam-me a esperar que o elemento urânio possa se tornar uma nova e importante fonte de energia num futuro próximo. Certos aspectos da situação que surgiu parecem exigir vigilância e, se necessário, ação rápida por parte da Administração. Portanto, acredito ser meu dever chamar sua atenção para os seguintes fatos e recomendações:
Nos últimos quatro meses, tornou-se provável – através do trabalho de Joliot na França, bem como de Fermi e Szilard na América – que seja possível estabelecer uma reação nuclear em cadeia numa grande massa de urânio, pela qual seriam geradas quantidades imensas de energia e grandes quantidades de elementos semelhantes ao rádio. Agora parece quase certo que isso poderia ser alcançado num futuro próximo.
Esse novo fenômeno também levaria à construção de bombas e é concebível – embora muito menos certo – que bombas extremamente poderosas de um novo tipo possam assim ser construídas. Uma única bomba desse tipo, transportada por barco e explodida num porto, poderia muito bem destruir todo o porto juntamente com parte do território circundante. No entanto, tais bombas podem se mostrar demasiado pesadas para transporte por ar.
Os Estados Unidos têm apenas minérios muito pobres em urânio em quantidades moderadas. Há algum bom minério no Canadá e na antiga Tchecoslováquia, enquanto a fonte mais importante de urânio é o Congo Belga.
Diante dessa situação, talvez seja desejável manter um contato permanente entre a Administração e o grupo de físicos que trabalham em reações em cadeia na América. Uma maneira possível de alcançar isso poderia ser confiar essa tarefa a uma pessoa que tenha sua confiança e que possa servir talvez de forma não oficial. Sua tarefa poderia incluir o seguinte:
a) abordar departamentos governamentais, mantê-los informados sobre os desenvolvimentos futuros e apresentar recomendações para ação governamental, dando atenção especial ao problema de garantir um suprimento de minério de urânio para os Estados Unidos;
b) acelerar o trabalho experimental, que atualmente está sendo realizado dentro dos limites dos orçamentos dos laboratórios universitários, fornecendo fundos, se necessário, por meio de seus contatos com pessoas privadas dispostas a fazer contribuições para essa causa, e talvez também obtendo a cooperação de laboratórios industriais que possuam os equipamentos necessários.
Entendi que a Alemanha realmente interrompeu a venda de urânio das minas tchecoslovacas que ela tomou posse. Que ela tenha tomado uma medida tão precoce talvez possa ser compreendido pelo fato de o filho do subsecretário de Estado alemão, von Weizsäcker, estar ligado ao Instituto Kaiser-Wilhelm em Berlim, onde algumas pesquisas americanas sobre urânio estão sendo repetidas.
Atenciosamente,
Albert Einstein
RESPOSTA E RESULTADOS
Roosevelt levou a carta a sério, resultando na criação do Comitê Consultivo de Urânio, marcando o início dos esforços dos EUA para desenvolver uma bomba atômica. No entanto, esse comitê não conseguiu avançar com a criação da arma. Apenas após o início da Segunda Guerra Mundial e com a ajuda das memórias Frisch-Peierls e dos Relatórios Maud, Roosevelt autorizou o Projeto Manhattan, levando ao desenvolvimento das primeiras bombas atômicas.
LEGADO E REFLEXÃO
A Carta de Einstein-Szilard transcendeu seu contexto inicial e teve um impacto profundo e duradouro na História. Ela representou um marco crucial na evolução da Segunda Guerra Mundial, influenciando a forma como a energia nuclear foi explorada e abrindo as portas para uma nova era de possibilidades científicas e geopolíticas.
Embora Albert Einstein não tenha se envolvido diretamente no desenvolvimento prático do Projeto Manhattan, sua assinatura na carta foi um catalisador fundamental que desencadeou uma série de eventos que culminaram na criação da primeira bomba atômica. Sua participação conferiu uma credibilidade inigualável ao apelo por um programa de pesquisa nuclear nos Estados Unidos. A influência de Einstein como uma figura respeitada no cenário global e sua associação com ideais de paz e justiça ressoaram fortemente nas mentes dos líderes políticos e militares da época.
O Projeto Manhattan, que emergiu como resposta direta à preocupação expressa na carta, marcou o início de uma empreitada científica e tecnológica sem precedentes. Com um objetivo inicial de desenvolver uma arma capaz de encerrar a Segunda Guerra Mundial, o projeto evoluiu para uma exploração mais ampla dos princípios da fissão nuclear, que levou à compreensão da energia nuclear e suas múltiplas aplicações, incluindo usos pacíficos e a geração de energia.
SAIBA MAIS!
O PROJETO MANHATTAN.
Disponível em: https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/projeto-manhattan.htm
BREVE BIBLIOGRAFIA DE ALBERT EINSTEIN.
Disponível em: https://www.ebiografia.com/albert_einstein/
CONSEQUÊNCIAS E REFLEXÕES DO USO DE ARMAS NUCLEARES.
Disponível em: https://www.icrc.org/pt/document/armas-nucleares-uma-ameaca-intoleravel-para-humanidade
APLICAÇÕES DA ENERGIA NUCLEAR.
Disponível em: https://sbfisica.org.br/v1/sbf/wp-content/uploads/2022/08/Aplicacoes-da-energia-nuclear_virtual.pdf
REFERÊNCIAS
BOHR, Niels; WHEELER, John Archibald. The mechanism of nuclear fission. Physical Review, v. 56, n. 5, p. 426, 1939.
ALLISON, Samuel K.; SEGRÈ, Emilio; ANDERSON, Herbert L. Enrico Fermi 1901–1954.. Physics Today, v. 8, n. 1, p. 9-13, 1955.
COOPER, Dan. Enrico Fermi: and the Revolutions of Modern Physics. Oxford University Press, 1999.
FERMI, Enrico; SZILÁRD, Leo. Air cooled neutronic reactor. . In: Neutron Physics For Nuclear Reactors: Unpublished Writings by Enrico Fermi. 2010. p. 409-446.
BAKER, D. E. Graphite as a neutron moderator and reflector material. Engineering and design , v. 14, n. 3, p. 413-444, 1971.
Einstein-Roosevelt-letter. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2007. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Einstein-Roosevelt-letter.png. Acesso em: 02 fev. 2021.
Fermi-Szilard Neutronic Reactor. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2011. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fermi-Szilard_Neutronic_Reactor_-_Figure_38.png. Acesso em: 04 fev. 2021.
COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
DA SILVA NETO, Pedro Ricardo. BRISSI, Deidimar Alves. A CARTA DE EINSTEIN. Pindorama Ciência: v.01, e20210004, 2021. Disponível em: http://editorapindorama.com.br/pindoramaciencia/artigos/2021_A_Carta_de_Einstein/index.com. Acesso em: xx/xx/2023.