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Titulo: As histórias das constelações
Autores: Camila de Andrade Pandini,
Lilia Kelli da Silva, Mikaela Teleken de Jezus e
Roberta Chiesa Bartelmebs
Titulo: O sistema solar
Autores: Pedro Ricardo da Silva Neto, Deidimar Alves Brissi, Fabiana Esgalha Vieira Honda e Dante Ghirardello
Pindorama Ciência - Ano 3 - Volume 3 - e2023002
No horizonte em uma noite avistei o Caminho da Anta
Avistei nebulosas, a Ema me encanta
A Ema que tentava devorar dois ovos de passarinho
Tadinho! Não estava em seu ninho
Em dezembro, avistei o Homem Velho
Beltegeuse indicava seu ferimento
Os deuses o recompensaram com esse livramento
Durante o ano, avistei a Anta do Norte e o Cervo
São tantas! Um acervo!
Poema de Beatriz dos Santos Silva
1. INTRODUÇÃO
Quando Pedro Alves Cabral chegou ao Brasil em 1500, os povos que aqui viviam tinham enchido o céu com mais de 100 constelações (Figura 1). Como aqui viviam mais de 1000 povos, estas constelações não eram sempre as mesmas em todo Brasil.
Estas constelações eram essenciais para a sobrevivência destes povos. Elas serviam como marcadores que indicavam a passagem do tempo (calendário) e estavam diretamente relacionadas com o que acontecia na terra. Tudo que se via no céu, tinha uma correspondência na terra. A posição que o Sol nascia, por exemplo, poderia indicar frio ou calor, época de colher ou de plantar, época de fazer filho ou dos filhos nascerem. Da mesma forma, o aparecimento de uma constelação no céu poderia indicar época de cheias ou de secas, época de colher o mel ou preparar as colmeias.
Portanto, esta visão de quatro estações bem dividas do ponto de vista climático, com alguns fenômenos bem determinados, é uma visão eurocêntrica e norteamericanocêntrica, reforçada, por exemplo, pelo cinema americano e desenhos animados da Disney. Não tendo respaldo em grande parte do mundo. Como tais culturas exerceram, e exercem, grandes influências sobre o Brasil e o mundo, continuamos reproduzindo visões distorcidas sobre o clima em cada estação do ano, sem conhecermos o fenômeno astronômico e nosso próprio país.
Mas a Astronomia Indígena não possuía apenas constelações. A partir das observações do céu os povos indígenas estabeleciam os seus calendários, construíram monumentos megalíticos, observatórios, entenderam as estações do ano, determinaram os pontos cardeais, compreenderam os movimentos das marés, do Sol, Lua e dos planetas; e desenvolveram muitos outros conhecimentos práticos que possibilitava a vida nos mais diversos biomas do país.
Figura 1. Representação de estrelas e de constelação indígena no painel de Saltos de Caxias, PR. Fonte: História da Astronomia no Brasil, 2013.
Localizados no estado brasileiro Maranhão, no século XVII, os povos Tupinambá observavam o céu de forma ampla, conheciam a Via Láctea (Figura 2), nebulosas claras e escuras, aglomerados estelares e as constelações. A Astronomia fazia parte do cotidiano das famílias indígenas. Em seu livro publicado em 1614, “História da missão dos padres capuchinhos na ilha do maranhão e terras circunvizinhas”, o “padre astrônomo” Claude d’Abbeville, registrou cerca de 30 constelações e estrelas conhecidas pelo povo Tupinambá.
Além disso, provavelmente todas as etnias também observavam o céu. Há registros ainda hoje de constelações dos povos Tukano, Desanas, Guaranis, entre outros. Infelizmente, com o genocídio que os povos indígenas sofreram, quase todo o conhecimento que eles tinham em 1500 foi perdido. Afinal, de mais de 1000 povos, hoje temos cerca de 300. Mas dos povos restantes, muitos perderam, no todo ou em parte: sua cultura, seus territórios, seus conhecimentos e até suas línguas.
Figura 2. A Via Láctea, normalmente conhecida pelos indígenas como o Caminho da Anta, além disso, miticamente ela é nomeada como a Morada dos Deuses. Fonte: NASA, 2018.
2. ALGUMAS CONSTELAÇÕES INDÍGENAS DO BRASIL
A constelação da Ema (Guirá Nhandu, em guarani), é vista na Via Láctea (O Caminho da Anta), na segunda quinzena de junho, ela representa a chegada do inverno para os índios do sul do Brasil e o início da estação seca para os do Norte. Mitologicamente, essa constelação representa a ave em que buscava devorar dois ovos, representados pelas estrelas alfa Muscae e beta Muscae, se a cabeça da Ema foi solta pela constelação Cruzeiro do Sul, a ave beberá toda água do planeta Terra (Figura 3).
Figura 3- Constelação da Ema, as manchas claras e escuras da Via Láctea representam a plumagem da Ema, as estrelas dentro do pescoço da Ema (alfa e beta Centauro) representam os ovos que ela acabou de engolir. Fonte: Stellarium, 2021.
A constelação do Homem Velho (Tuya, em guarani) aparece na segunda quinzena de dezembro, sua chegada, simboliza chuvas no Norte e verão no Sul. Essa constelação é composta por três constelações indígenas, Seichu, Tapi’i rainhykã e Joykexo, o aglomerado estelar, Plêiades (Seichu em Tupi) representa o penacho do Homem Velho e o aglomerado Híades, representa a sua cabeça, Cinturão de Órion conhecido como as Três Marias (Joykexo em guarani) formam a perna dessa constelação e a estrela supergigante vermelha Betelgeuse (Figura 4).
Figura 4- Constelação do Homem Velho, que segura um bastão para se equilibrar representado pelas estrelas π⁵ Orionis até β Orionis (Rigel). Fonte: Stellarium, 2021.
Dezoito anos antes da publicação do Diálogo, o padre francês Claude d’Abbeville relatou que os indígenas Tupinambás sabiam da relação do fluxo das marés com a Lua, isso antes de Galileu Galilei (1564-1642).
Na Via Láctea, os indígenas da região norte do Brasil, podem avistar na segunda quinzena de setembro, a constelação da Anta do Norte (Tapi’i, em guarani), as estrelas ζ Cassiopeiae (Zeta Cassiopeiae) e µ Cassiopeiae (Mu Cassiopeiae). Para as etnias tupi-guaranis a Anta do Norte, percorre o seu caminho, a Via Láctea, ou o Caminho da Anta. O aparecimento dessa constelação indica o início do calor no Sul e chuvas no Norte do Brasil (Figura 5).
Figura 5- Constelação da Anta do Norte, o focinho da anta é representado pela estrela Deneb. Fonte: Stellarium, 2021.
A constelação do Cervo, é vista na segunda quinzena de março, sua chegada representa época fria para os indígenas do Sul e seca no Norte, as constelações ocidentais Vela e Cruzeiro do Sul fazem parte da constelação do Cervo (Figura 6).
Figura 6- Constelação do Cervo, a estrela γ Velorum (Gamma Velorum) representa o focinho do Veado. Fonte: Stellarium, 2021.
A constelação da Cobra (Figuras 7 e 8) é denominada pelos povos indígenas da família linguística Tupi-Guarani como mboi tatá e também é conhecida como boitatá, ela é representada pela constelação ocidental do Escorpião, na mesma região do céu, outras etnias indígenas como a Desana, nomeavam essa constelação de Aña, também conhecida como Surucucu. Além disso, os Desanas possuíam um mito sobre essa constelação, para eles, a serpente foi criada para se vingar da morte da esposa de Deyubari Gõãmu, triste com a situação Deyubari Gõãmu escondeu os peixes no corpo de Aña, para que os humanos fiquem tristes como ele.
O surgimento dessa constelação ocorre no mês de junho, indicando um período de seca e o início do inverno no Sul e desaparece próximo ao final de outubro. A mitologia Tupi-Guarani explica que a cobra devora os olhos dos animais e com isso eles ficam cada vez mais brilhantes até a serpente se tornar o mboi tatá. A estrela α Scorpii (Antares), representa a cabeça da Mboi, a estrela Shaula é localizada na ponta da cauda da cobra.
Figura 7- Constelação da Cobra segundo os indígenas desanas. Fonte: Ciência Hoje, 2011, p.43.
Figura 8- Constelação da Cobra segundo os indígenas guaranis. Fonte: Ciência Hoje, 2011, p.43.
A constelação da Canoa (Yar Ragapaw em tenetehara) indica um período chuvoso no mês de março para os indígenas localizados no norte e nordeste do Brasil, como os Tupinambás. Essa constelação é localizada na região das constelações ocidentais Ursa Maior com as estrelas Phecda, Megrez, Alioth, Mizar e Alkaid e constelação Leão Menor. A Canoa é complementada pela constelação do Barco, com o mastro composto pelas estrelas Alpha Canum Venaticorum (Cor Caroli) e Epsilon Ursae Majoris (Alioth) e a vela (Figura 9).
Figura 9 - Constelação da Canoa e do Barco, conhecidas pelos povos Tupinambás e Tambés, sinalizando o ponto cardeal norte. Se tirarmos o mastro e a vela (“número 1” superior), o quadrilátero abaixo forma a constelação da Canoa. Se acrescentarmos o mastro e a vela temos a constelação do barco. Fonte: AFONSO, 2023.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
É preciso romper com a ideia de que os indígenas que Cabral encontrou aqui em 1500 eram selvagens, povos atrasados que nada sabiam. Esta concepção foi construída em cinco séculos para justificar toda a brutalidade da invasão dos seus territórios e do genocídio que estes povos sofreram.
Continuar reproduzindo estas ideias em pleno século XXI, é continuar cultivando uma ignorância que dá continuidade à violência brutal que estes povos têm sofrido nos últimos quinhentos anos. Neste sentido, a melhor forma de interromper este ciclo é conhecer estes povos, pesquisa-los e estuda-los e defende-los.
SAIBA MAIS!
SILVA, B. S; BRISSI, D. ASTRONOMIA INDÍGENA - PARTE II - BEATRIZ DOS SANTOS SILVA E DEIDIMAR ALVES BRISSI - 24/01/2023. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=R8LAFC6piJE. Acesso em: 21 maio de 2023.
SILVA, B. S; BRISSI, D. 6968 HUM ASTRONOMIA DOS TUPINAMBÁS UMA INVESTIGAÇÃO BASEADA NOS RELATOS DE CLAUDE D’ABBEVILLE. YouTube, 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oG8_iv48ljE. Acesso em: 21 maio de 2023.
SILVA, B.; BRISSI, D. ASTRONOMIA DOS TUPINAMBÁS: OS PRECUSORES DE GALILEU. CONICT - Congresso de Inovação, Ciência e Tecnologia, Brasil, nov. 2020. Disponível em: https://ocs.ifsp.edu.br/conict/xiconict/paper/view/6968/1920. Data de acesso: 21 maio 2023.
Galileu e a natureza dos tupinambá. SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, 2009. Disponível em: https://pindorama.art.br/file/17724galileu.pdf. Acesso em: 21 maio de 2023.
Lima, F. P; Figuerôa, S. F.M. Etnoastronomia no Brasil: a contribuição de Charles Frederick Hartt e José Vieira Couto de Magalhães. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v.5, n. 2, p. 295-313, maio-ago. 2010. Scielo, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/GhxBKGRtpXH3HJNS3SYZpmm/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 21 maio de 2023
Astrolab | Constelações indígenas. YouTube, 2018. Disponível em: https://www.bing.com/videos/search?q=betelgeuse+homem+velho&&view=detail&mid=AB43BB421548031AE9A3AB43BB421548031AE9A3. Acesso em: 21 maio de 2023.
REFERÊNCIAS
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AFONSO, G. B. O CÉU DOS ÍNDIOS DO BRASIL. ANAIS DA 66ª REUNIÃO ANUAL DA SBPC - RIO BRANCO, AC - JULHO/2014. Disponível em: http://sbpcnet.org.br/livro/66ra/PDFs/arq_1506_1176.pdf. Acesso em: 21 maio 2023.
AFONSO, G. B. As Constelações Indígenas Brasileiras. Observatórios Virtuais. Disponível em: http://telescopiosnaescola.pro.br/indigenas.pdf. Acesso em: 21 maio 2023.
AFONSO, Germano B. et al. A constelação de escorpião na mitologia indígena. Ciência Hoje, XLVII, Abril 2011. 40-44. Disponível em: https://pindorama.art.br/file/16745escorpiao.pdf. Acesso em: 2 mar. 2023.
D'ABBEVILLE, C. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças. Câmara dos Deputados. Disponível em: https://bd.camara.leg.br/bd/handle/bdcamara/30300. Acesso em: 21 maio 2023.
MATSUURA, O. T. História da Astronomia no Brasil. 1ª. ed. Recife: Companhia Editora de Pernambuco - CEPE, v. I, 2013. 11-655 p. ISBN 978-85-7858-247-0.
Kovo, Y. The Summer Triangle and the Milky Way Galaxy. NASA, 2006. Disponível em: https://www.nasa.gov/image-feature/ames/kepler/milky-way. Acesso em: 21 maio de 2023.
Liebermann, S. Astronomy Picture of the Day. NASA, 2018. Disponível em: https://apod.nasa.gov/apod/ap180418.html. Acesso em: 23 maio de 2023.
Stellarium Astronomy Software. Disponível em: https://stellarium.org/pt/. Acesso em: 23 maio de 2023.
COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
SILVA, Beatriz dos Santos. BRISSI, Deidimar Alves. Constelações indígenas brasileiras. Pindorama Ciência: v.03, e20230002, 2023. Disponível em: http://editorapindorama.com.br/pindoramaciencia/artigos/constelacoesindigenas/. Acesso em: xx/xx/2023.